A GASTRONOMIA NÃO É FEITA APENAS DE TÉCNICA, ELA FEITA TAMBÉM DE MEMÓRIAS

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A gastronomia não é feita apenas de técnica, ela é feita também de memórias. Resgatar quem somos, encontrar nossas raízes, identificar o que torna nossa cozinha única e especial,

é um processo que leva tempo, que exige reflexões, que provoca  reencontros com nosso passado e com nossa própria história. Cozinhas baseadas apenas na técnica são vazias, carentes de alma, sem identidade.

The Gray

A Chef Mashama Bailey precisou fazer esse mergulho no passado para traduzir suas memórias e sua própria história na identidade do seu restaurante, o The Gray, na cidade de Savannah / Geórgia, um dos estados americanos onde a segregação racial deixou marcas profundas. A localização do The Gray diz muito sobre isso, o restaurante fica em uma antiga estação de ônibus onde os negros não podiam entrar.

O sentimento de Mashama diz muito sobre esse lugar, “Quando  entro  neste  edifício,  não  posso  deixar  de  compreender  o  impacto  histórico  que  ele  tem, os  meus  familiares  não  poderiam  circular  livremente  neste  espaço,  e  agora,  sendo  sócia  deste  restaurante,  eu  entendo  que  a  mudança  está  disposta  a  acontecer  em  qualquer lugar, inclusive aqui em  Savannah.”

Não é a toa que seu restaurante se chama The Gray (que em inglês quer dizer cinza), pois essa cor nasce da mistura do preto com o branco.

O que por si só, já é um grito de alerta e uma forte afirmação pela igualdade, pela tolerância e pelo respeito a nossa própria diversidade cultural e racial. No fundo, não somos nem pretos nem brancos, somos todos, de alguma forma, frutos dessa maravilhosa mistura.

Restaurante The Gray – Savannah / Geórgia

Essa viajem ao próprio passado começou na mesa de um restaurante local, ela pediu siri apimentado que vinha com um molho delicioso que ativou imediatamente suas memórias, “Eu  provei  e  voltei  para  a  cozinha  da  minha  avó, eu  comi  assim  durante  toda  a  minha  vida,  e  não  sabia  que  havia  restaurantes  construídos  em  torno  da  comida  com  a  qual  cresci.”

Ela acabou recriando receitas clássicas dos seus antepassados escravizados no The Gray onde o siri, o arroz, o quiabo, os camarões, o milho e a carne de cabra se tornaram as estrelas do cardápio.

Ao  retornar  à  cidade  onde  cresceu, depois de alguns anos trabalhando em Nova York, ela disse:  “Quando  saí  da  Geórgia,  faltava  um  pedaço  de  mim.  Algo  estava  me  chamando de volta.  Então eu voltei e comecei a me conectar  com  as  pessoas  e  com essa terra,  algo  começou  a  preencher  minha  alma.”

Sem dúvida, é esse sentimento e essa certeza, que fazem da cozinha da Chef Mashama Bailey algo tão especial.

Vivre la Vie

redacao@foodreviewmagazine.com.br

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